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  de 2007

 
 

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Praia do Jacaré

História

Na Paraíba, de modo especial João Pessoa e Cabedelo, existem inúmeros monumentos históricos, que contam a colonização portuguesa e todas essas lutas para a sua fixação na região, o que sempre foi ameaçada pelas invasões, sobretudo pelos ataques franceses que provocaram, em 1584, na Foz do Rio Paraíba, a construção do Forte São Felipe.

Esses mesmos cuidados não evitaram que, em 1634, os holandeses tomassem a região e aqui se estabelecessem durante 20 anos, sendo posteriormente expulsos por André Vidal de Negreiro.

O Forte de São Felipe está localizado em frente à Ilha da Restinga, o que significa que as lutas e as batalhas de defesa e ataque dos interesses da coroa portuguesa tiveram presença importante no Rio Paraíba, no seu trecho do nascedouro da cidade de João Pessoa, hoje imediações do centro histórico, até à Fortaleza de Santa Catarina em Cabedelo. A construção do primeiro fortim de iniciativa do general espanhol Diogo Valdez, onde chegou com uma esquadra para combater os franceses e alguns nativos aliados, o que foi restaurado por Martim Leitão em 1585. Este fortim foi, mais tarde, abandonado em razão das forças colonizadoras terem se transferido das margens do Rio Paraíba para o outro lado, as margens do Oceano Atlântico em Cabedelo.

Jacarés e Hidroaviões

A Praia do Jacaré foi sempre palco de incursões e excursões históricas nesta região. Dela e nela sempre se observaram as navegações de interesses comerciais e de colonização, o que é retratado pelo número de naufrágios ocorrido nas águas do Rio Paraíba. Esta praia fluvial tem a sua história interessante, nos idos dos anos 30, o leito do rio serviu como aeroporto para peuqenos hidro-aviões que transportavam passageiros para portos e aeroportos maiores quando o destino era para as grandes metrópoles e até a Europa. Segundo os seus mais antigos nativos, chama-se Praia do Jacaré em razão de, em época mais remota, existir grande quantidade de jacarés nos seus lagos e lagoas, decorrentes das águas da maré.

O Gringo

Segundo o Gringo, a praia se chamava Praia de Santa Maria, porém “aqui pra baixo, as lagoas eram cheias de jacarés. Dava medo atravessar essas águas para ir à vila ou a Cabedelo. Muita gente foi mordida por esses bichos, o que criou raiva nos pescadores, que decidiram matar um a um”.

Essa é a razão do nome Praia do Jacaré, mesmo que o próprio rio não tenha tido um só jacaré em suas águas.
Hoje, a Praia do Jacaré tem o seu patriarca. Denominado de estrangeiro, mas de feições e temperamento nativos, embora as etnias as vezes nos confundem. Ele pode ser confundido com alguns "campesinos" da Reggio Calabria italiana ou se parecer com algum pescador dos mares das Ilhas Gregas. Roberto de Sousa, natural de Ribeira, sítio do município de Santa Rita, nascido em 25 de outubro de 1933, guarda, de modo sábio e com poucas palavras, as informações colhidas de outras gerações sobre este pedaço do município de Cabedelo e também toda uma experiência de 28 anos de pescador às margens do Rio Paraíba.

Aos seus dois anos de idade, foi, juntamente com o seu irmão raptado por alemães que os carregaram para a cidade de Rio Tinto, segundo ele, no intuito de levá-los posteriormente para a Alemanha. Ao notar o desaparecimento dos filhos, o pai montou no cavalo e iniciou uma incessante busca até resgatá-los das mãos dos seus raptores. Daí é que, a partir de então, ele e o seu irmão, passaram a ser chamados, pela avó e posteriormente por todos, de Gringo e Galego.
Gringo ainda conta que escutou de muita gente ser difícil entrar na Ilha do Stuart, o que os ingleses consideravam como sua propriedade. Nesta ilha, duas coisas restaram notáveis: a usina e o cemitério.

Na Praia do Jacaré, diz Gringo, “o primeiro barco que aqui chegou para se demorar foi a de um holandês (“Ken e Kell”) com quem fiz uma grande amizade. A partir daí, todo barco que chegava, numa língua estrangeira, perguntava: onde está o Gringo?”.

Gringo testemunhou o naufrágio de muitos navios, chegando até a mergulhar para tentar descobrir tesouros de alguns deles. Foi quando ferido por um peixe grande e arranhado pelos cobres do navio afundado e quase perdendo a perna, deixou as tentativas de exploração.
Gringo é a história da gastronomia na Praia do Jacaré. Foi ele que “inventou bar por essas redondezas” . Mesmo sem algum balcão, mergulhava e trazia a pesca para fritar, já sob encomenda do freguês para se deliciar com uns bons copos de cachaça... Quem conheceu a Praia do Jacaré, inevitavelmente, conhece Gringo, as suas estórias, a sua forte personalidade e todos os momentos de dificuldades e bonança da sua dedicada e longa vida de pescador. Povoou a Praia do Jacaré de filhos, netos e bisnetos e de tanta amizade, que não cabe no seu pequeno barco e pesa muito mais do que o maior dos arrastões.

Damião Ramos Cavalcanti
 
Sivuca e a Praia do Jacaré

O famoso músico paraibano, nascido na cidade de Itabaiana, quando, no Rio de Janeiro, trabalhava em um poema sinfônico tendo como tema Os Sertões de Euclides da Cunha, escreveu o seguinte depoimento sobre a Praia do Jacaré, no Jornal do Brasil, edição de 27 de julho de 1988, Coluna ‘Eu conheço um lugar', Página 8 do Caderno Viagem. Dias atrás, Sivuca tinha recebido no Hotel Nacional, como noticiou o mesmo jornal, “o Prêmio Sharp como arranjador de música instrumental”.

Praia do Jacaré

Sou paraibano de Itabaiana e há uma praia que nunca deixo de visitar quando vou a João Pessoa: a Praia do Jacaré. Ela fica a cinco quilômetros do centro da cidade, a meio caminho para o Porto de Cabedelo, bem na foz do Rio Sanhauá. Misturando águas do rio e do oceano, ela é muito linda em seus 10 quilômetros de extensão, com areias bem brancas coalhadas por barcos de pescadores e o mais lindo pôr-do-sol do mundo.

Sivuca e Glorinha Gadelha

Não é exagero meu: a Praia do Jacaré é tão bonita que um inglês foi visitá-la há uns 20 anos e nunca mais saiu de lá. É ele quem conserta os barcos dos pescadores e hoje é mais paraibano do que muitos paraibanos. Da mística do lugar fazem parte também algumas figuras folclóricas: os que fazem discursos políticos e os poetas loucos, mergulhados em filosofia. Ah, que bom lembrar as especialidades culinárias da região: o suco de graviola com vodca, a batida de cajá e (não sou muito chegado, mas tem quem goste) o uísque com água de coco. Além, é claro, de muito peixe, camarão e lagosta.

A Praia do Jacaré tem, não uma, mas várias aldeias de pescadores e dois ou três bares. O meu preferido (é uma pena que eu não lembre o nome) funciona num prédio onde era antigamente uma fábrica de gelo. O chope gelado é sempre bem vindo, enquanto, nas tardes ensolaradas, se aguarda quase que um ritual: pontualmente, às 15 para as seis, a dona do bar coloca na vitrola o Bolero , de Ravel, e todos fazem silêncio absoluto, em reverência ao espetáculo. Transformado em uma bola de fogo, o sol se põe lentamente do outro lado do rio.

A vida na Praia do Jacaré é mansa e parece refletir a preguiça do rio, que naquela altura, praticamente dentro do mar, se espraia sem pressa. Da praia dá para ver a Ilha Bela, um lugar muito bonito no meio do rio, e do outro lado da margem a Praia de Costinha ( nesta, costumavam antigamente pescar baleia: felizmente isso não acontece mais e elas podem ser vistas, vivas, ao longe). As águas são tão mansas que o lugar era antigamente usado para o pouso de hidroaviões, mas isso também felizmente acabou. Hoje a Praia do Jacaré é apenas uma bela paisagem rústica habitada por pescadores. Um lugar para quem, como eu, gosta de paz. (Arquivo)

Fonte: Golfinhos Bar